A adoção de assistentes de codificação baseados em IA está acelerando a produtividade de equipes de desenvolvimento em um ritmo sem precedentes. Ferramentas como Claude Code, GitHub Copilot e similares já fazem parte do fluxo diário, executando comandos, automatizando tarefas e reduzindo fricção operacional.
O problema é que, junto com esse ganho de eficiência, surge uma nova classe de risco que ainda não está no radar da maioria das equipes: o vazamento silencioso de credenciais por meio de artefatos locais gerados por essas ferramentas.Este não é um cenário hipotético. É um problema real, recorrente e com impacto direto em segurança de aplicações, supply chain e governança de acesso.

O problema: credenciais persistidas fora do radar
O Claude Code utiliza um modelo de permissões para execução de comandos shell. Quando um comando precisa ser executado, o usuário pode autorizar de forma pontual ou permanente.
Ao escolher a opção de autorização permanente, o comando completo é salvo localmente no arquivo:
.claude/settings.local.json
Aqui está o ponto crítico: o comando é armazenado exatamente como foi executado. Isso inclui tokens, headers de autenticação, variáveis de ambiente e qualquer credencial embutida.
Na prática, esse arquivo se torna um repositório passivo de segredos.
Como o vazamento acontece na prática
O risco não vem de uma falha isolada, mas de um fluxo completamente legítimo:
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O desenvolvedor executa comandos autenticados, como chamadas de API ou processos de deploy
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Autoriza permanentemente esses comandos no assistente
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O Claude Code armazena essas instruções localmente com as credenciais incluídas
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O arquivo permanece dentro do diretório do projeto
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O projeto é publicado em um registry
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O arquivo é incluído no pacote sem qualquer alerta
Resultado: credenciais sensíveis são publicadas junto com o código, sem intenção e sem visibilidade.
Evidência: isso já está acontecendo em escala
Uma análise em milhares de pacotes publicados identificou um padrão preocupante:
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Aproximadamente 46.500 pacotes analisados
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428 continham o arquivo .claude/settings.local.json
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33 continham credenciais sensíveis
Isso significa que cerca de 1 em cada 13 arquivos expostos continha dados críticos.
Não é um caso isolado. É um comportamento emergente.
O que está sendo exposto
Os dados encontrados não são irrelevantes. Pelo contrário:
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Tokens de publicação de pacotes
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Tokens de acesso pessoal
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Credenciais completas em texto plano
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Tokens de API de terceiros
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Tokens de bots com controle total
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Credenciais de ambientes de teste e desenvolvimento
Esse tipo de exposição pode levar diretamente a comprometimento de contas, ataques à cadeia de suprimentos e acesso indevido a sistemas internos.
Por que esse problema passa despercebido
Existem alguns fatores que tornam esse risco difícil de identificar:
O arquivo não parece sensível. Ele se apresenta como uma simples lista de comandos.
Ele é oculto por padrão. Diretórios com ponto não aparecem em fluxos comuns.
Não existe cultura de proteção. Diferente de arquivos como .env, esse ainda não é tratado como segredo.
Ferramentas de publicação não alertam. O fluxo padrão não sinaliza o risco.
O comportamento é incentivado. Autorizar permanentemente reduz atrito e vira hábito.
Ou seja, o vazamento não acontece por descuido explícito, mas como consequência natural do uso.
Impacto em segurança
O impacto vai além de um vazamento pontual.
Credenciais expostas podem permitir a publicação de pacotes maliciosos, comprometendo toda a cadeia de dependências.
Mesmo após remoção, artefatos publicados continuam acessíveis em caches e mirrors.
Tokens expostos frequentemente possuem permissões elevadas, permitindo escalada de privilégio.
Credenciais de ambientes considerados “não críticos” podem servir como porta de entrada para ambientes produtivos.
Um novo vetor introduzido por ferramentas de IA
Esse cenário revela uma mudança importante.
Ferramentas de IA não apenas aumentam produtividade. Elas também criam novas superfícies de ataque.
Aqui não estamos lidando com um erro clássico de configuração, mas com um novo padrão de interação:
- Persistência automática de comandos
- Armazenamento de contexto sensível
- Incentivo à autorização permanente
- Baixa visibilidade sobre dados armazenados
O risco deixa de ser pontual e passa a ser estrutural.
Como mitigar de forma prática
A correção é simples, mas precisa ser intencional.
Primeiro, trate o diretório .claude/ como sensível. Ele não deve ser versionado nem publicado.
Adicione:
.claude/
em .gitignore e .npmignore.
Segundo, valide sempre o conteúdo antes da publicação:
npm pack --dry-run
Esse passo deve fazer parte do processo padrão.
Terceiro, não confie em comportamentos padrão de ferramentas de empacotamento. Cada ecossistema possui suas próprias regras e exceções.
Quarto, evite autorizações permanentes para comandos que envolvam autenticação, tokens ou dados sensíveis.
Por fim, implemente verificações automatizadas no pipeline para detectar arquivos ocultos e padrões de credenciais.
Se você já publicou esse arquivo
Considere as credenciais comprometidas imediatamente.
- Revogue tokens
- Gire credenciais
- Audite acessos
- Verifique possíveis abusos
Mesmo que o pacote tenha sido removido, o conteúdo pode continuar acessível.
O arquivo .claude/settings.local.json não é uma vulnerabilidade por si só. O problema está no contexto em que ele é gerado e utilizado.
Estamos diante de um novo tipo de risco, introduzido pela forma como ferramentas de IA interagem com ambientes de desenvolvimento.
A mitigação é simples. A dificuldade está em enxergar o problema antes que ele aconteça.